Em matéria de inclusão, RedCLARA, por meio do projeto ALICE2, tem  desprendido grandes esforços para integrar os países da América Latina que ainda não podem se conectar com o mundo através da rede de Internet Avançada. Honduras é um desses países e que hoje vive um movimento profundo – desde o governo e com a participação das instituições de ensino superiores – para estabelecer a primeira rede acadêmica nacional. Líder da ação é a Subdiretoria de Ciência e Pesquisa da Diretoria de Competitividade e Inovação pertencente à Secretaria Técnica de Planejamento e Cooperação Externa, SEPLAN, e sobre isso conversamos com a Engenheira Ivette Castillo de Colindres, sua subdiretora.


Ivette Castillo de Colindres

A Diretoria de Competitividade e Inovação na Subdiretoria de Investigação tem liderado no último ano as conversações com a RedCLARA a fim de avaliar o potencial esperado da conexão de Honduras à redes acadêmicas avançadas através da RedCLARA. A partir da sua impressão, por que é importante que Honduras se conecte à rede avançada latino-americana?

Atualmente, não existem dúvidas sobre a importância que há em investir em pesquisa, ciência e tecnologia, como uma das estratégias para apoiar o desenvolvimento social y econômico dos países. Cada vez, somos mais conscientes da correlação existente entre tais investimentos e avanços no desenvolvimento, no entanto os resultados concretos não são suficientes para a abordagem no nível desejado de desenvolvimento e preencher a lacuna que nos separa dos países mais avançados.

Em Honduras, apesar das dificuldades financeiras têm sido feito muitos esforços pela alocação crescente de recursos e também para aproveitar os recursos  físicos e humanos já existentes, direcionando-os em um mesmo sentido.

Para isso, foi formado o CONSÓRCIO das Universidades, com a participação de todas as universidades do país (20 no total), juntamente com SEPLAN que buscam melhorar a formação e o uso e desenvolvimento de ferramentas científicas e tecnológicas

No quadro dos objetivos, a importância de se juntar à RedCLARA é evidente, ligando mais de 1.000 universidades na região, outras redes supranacionais, bem como informações de alto nível científico vai permitir uma ampla cooperação para a promoção da desenvolvimento científico y tecnológico em nível nacional e internacional, para que as universidades e centros de pesquisas do país estabeleçam vínculos com a comunidade cientifica  comunicada por meio dela e desenvolver processos de I+D+I, melhorando a qualidade e o conteúdo do ensino de ciências.

Quais são os passos que está seguindo a Subsecretaria de Ciência e Inovação para realizar essa conexão?

O processo teve início em janeiro desse ano com a socialização do Consorcio por parte da SEPLAN, com a qual, de forma geral, logo no mês de fevereiro contamos com a presença em Honduras de Luis Furlán, Diretor da Rede RAGIE da Guatemala e Presidente da RedCLARA, Rafael Ibarra, Diretor da Rede RAICES de El Salvador, e Claudia Córdova, responsável pela capacitação e outras atividades da RedCLARA, os quais tiveram uma primeira aproximação com as autoridades máximas das universidades e seus vice-reitores,  Diretores de Pesquisa, a fim de aprofundar aspectos técnicos, científicos e de informação geral relacionados com a futura incorporação do país nessa rede.

Então, em junho, com o intuito de dar maior importância e conhecimento do trabalho que a Rede exerce, foi realizado em Tegucigalpa, o 1 º Encontro Semestral  ALICE2 e o Curso Técnico de Mecanismos de Transição IPv6 organizado pela RedCLARA e LACNIC, com o apoio da SEPLAN e da Universidade José Cecilio del Valle.

A partir da data têm sido realizadas mais duas reuniões, nas quais foram apresentadas propostas sobre propriedades legais que poderiam dar vida à Rede Nacional, na qual o interesse por parte das universidades é grande.

Como as universidades hondurenhas avaliam a possível conexão com a RedCLARA?

As universidades consideram uma contribuição muito significativa. A instalação física e implementação de funções não representa um desafio maior. Sua sustentabilidade financeira, sim.

Em função das taxas relatadas pelo Index Mundi, Honduras (ver: http://www.indexmundi.com/es/honduras/) conta com uma população pouco maior que 8 milhões de habitantes, possui uma taxa de alfabetização (pessoas acima de 15 anos que podem ler e escrever) de 80% (posicionando-se no posto 143 na escala mundial e somente acima da Nicarágua e da Guatemala na América Latina), um PIB de 33.63 bilhões (o que coloca o país na 103ª posição global, apenas acima do Paraguai e da Nicarágua), e, em março de 2011 (de acordo com um relatório de 2009), conta com um total de usuários de 731.700 pessoas.

Nesse cenário, quais razões levam o governo hondurenho a concentrar recursos humanos e econômicos, através da Subdiretoria, para conseguir a implementação de uma rede acadêmica nacional e, por meio dela, a conexão com a RedCLARA?

No ano de 2010 com um novo enfoque para o desenvolvimento econômico social e político com base no processo planejado; mediante o Decreto No. 286-2009 que implementou a “Lei para o Estabelecimento de uma Visão de País e a Adoção de um Plano Nacional de Honduras”, e se criou a Secretaria Técnica de Planejamento e Cooperação Externa (SEPLAN). O papel da SEPLAN é enfatizado nas ações e iniciativas na organização e financiamento de projetos de pesquisa e no reforço da competitividade nacional, por meio dos comitês regionais de competitividade organizados em cada uma das regiões, por meio de um enfoque multidisciplinar capaz de gerar uma maior cooperação com o setor empresarial, na qual o Estado é visto como um facilitador para propiciar a identificação de prioridades estratégicas para o desenvolvimento nacional, a colaboração em redes de inovação, a inversão I+D+I, a formação de recursos humanos, e a interação público-privada. Sendo a RedCLARA uma porta  de oportunidades que, como se indicou anteriormente, estabelece vínculos com a comunidade científica, comunicada por ela mesma, desenvolvendo processos de I+D+I, melhorando a qualidade e os conteúdos de nível educativo superior, é uma ferramenta confiável de desenvolvimento.

Quais prazos estão considerando para a formação da rede nacional acadêmica de Honduras e quais são os passos que estão tomando agora para alcançar o objetivo inicial de criar a rede e estabelecer a infraestrutura física da era da Internet?

Nesse momento o CONSÓRCIO analisa uma série de instruções jurídicas que servem de base para a criação da Rede Nacional, uma vez que as universidades tomem a decisão final e assumam o compromisso de participar da Rede, a SEPLAN apoiará a elaboração do documento de criação da Rede. A documentação foi entregue no dia 3 de agosto desse ano. Nós já recebemos um feedback de algumas universidades e esperamos que nas próximas semanas seja possível fazer um resumo de todos os comentários.

O senhor considera que a realização da reunião semestral da RedCLARA e ALICE2 em Tegucigalpa contribuiu de algum modo para o objetivo de criar a rede hondurenha?

Não serviu para criar a rede hondurenha, mas contribuiu sim para visualizar um pouco mais a importância da participação dela e dos benefícios que podem ter as universidades com sua incorporação. Deram visibilidade e abertura não só com as universidades, mas também com a população em geral.

Pensando na conexão de Honduras com a RedCLARA, quando espera que ela esteja efetiva e o que considera que Honduras tem a oferecer para RedCLARA e vice-versa?

Espero que se torne efetiva este ano e entre as contribuições que Honduras poderia oferecer à rede, eu mencionaria as habilidades e os trabalhos realizados por algumas instituições de pesquisa no país e seriam compartilhados com a comunidade científica, como a Fundação Hondurenha de Pesquisa Agricola (FHIA – Ver: Notícias da FHIA, Março de 2007 No. 10), entidade que realiza pesquisas na área agrícola e tem obtido resultados significativos na melhoria genética das bananeiras, produzindo híbridos (FHIA-17, FHIA-21, FHIA-23, entre outros) que se estão sendo utilizados em mais de 50 países ao redor do mundo, pois apresentam una excelente alternativa alimentícia pelo seu elevado potencial produtivo e pelo seu baixo custo de produção. A Universidade Nacional Autônoma de Honduras em sua Faculdade de Medicina, que conta com um curso de pós-graduação em Neurologia, o qual é um Programa-Piloto em nível mundial com a maior produção científica da América Central, publicando em revistas de renome mundial, tais como Nature, Lancet Neurology, Brain, Epilepsia, etc., também criou guias educacionais internacionalmente aprovados para uso em todo mundo (Ver: Artigo do Journal of Neurological Siencie 15/02/2007; volume 253 #1-2: páginas 7-17). O Departamento de Microbiologia que realiza pesquisas nas áreas de virologia, imunologia, bacteriologia, parasitologia entre outros. O Observatório Astronômico Centro-americano de Suyapa, que realiza pesquisas nas áreas de astronomia, astrofísica, sensoriamento remoto e arqueoastronomia, com aplicações nas áreas de Gestão Territorial, Gestão e Prevenção de Desastres Naturais. A Central Regional do Litoral Atlântico (CURLA), na área de agricultura, a Escola Nacional de Ciências Florestais (ESNACIFOR) na área florestal, a Escola Agrícola Panamericana (EAP), as quais orientam suas pesquisas na direção de projeção empresarial de temas agropecuários, e têm conseguido criar espécies de sementes melhoradas resistentes a pragas locais, entre outros.

A contribuição da RedCLARA para Honduras, estará em seu auxílio para o desenvolvimento e melhora de competitividade do país, proporcionando uma  ferramenta que permite agregar e gerar valor, desenvolver, difundir e adequar o conhecimento das atividades de I+D+I das diferentes redes ao redor do globo.

Financiado pelo 7º Programa-Quadro (FP7) – Capacidades, da Comissão Europeia, o Projeto CHAIN, no qual a RedCLARA está fortemente envolvida, visa coordenar e impulsionar os esforços e resultados recentes com uma visão especificamente para as interfaces grid entre a Europa e o resto do mundo.


Federico Ruggeri, CHAIN

O CHAIN (Coordination & Harmonisation of Advanced e-Infrastructures / Coordenação e Harmonização de e-Infraestruturas Avançadas), que foi lançado em 14 de dezembro de 2010 e será executado até o final de 2012 – elaborará uma estratégia e definirá os instrumentos para garantir a coordenação e interoperação das infraestruturas europeias de grid com outras e-Infraestruturas externas. Para saber mais sobre a CHAIN e avaliar seu primeiro ano de ação, conversamos com Federico Ruggeri, coordenador do projeto.

 

A CHAIN está completando a primeira metade de vida. Após um ano de trabalho para promover e garantir a interoperabilidade das infraestruturas europeias de grid com as e-Infraestruturas do resto do mundo, e considerando o que tem sido feito com os parceiros do projeto na África subsaariana, Ásia e América Latina, quais recursos o senhor identificaria como sendo os mais relevantes do projeto e quais as contribuições mais relevantes para o desenvolvimento da e-Ciência?

O projeto CHAIN, que começou no dia 1 de dezembro de 2010, visa coordenar e alavancar os esforços realizados durante os últimos seis anos para ampliar os princípios operacionais e organizacionais da e-Infraestrutura europeia – e particularmente a grid – para um número de regiões do mundo. A CHAIN utiliza estes resultados com uma visão de um modelo harmonizado e otimizado de interação para a e-Infraestrutura e especificamente para as interfaces grid entre a Europa e o resto do mundo com uma ampla cobertura geográfica da América Latina até a região da Ásia-Pacífico.

O projeto começou com uma pesquisa em larga escala sobre as infraestruturas nacionais e regionais de grid para complementar e atualizar o banco de conhecimentos gerados pelos projetos regionais anteriores como EELA, EUMEDGRID, EU-IndiaGrid e SEE-GRID. Este banco de conhecimentos pode ser acessada do site do projeto www.chain-project.eu com uma interface interativa baseada em mapas geográficos: http://www.chain-project.eu/knowledge-base.

O CHAIN tem desenvolvido uma estratégia de eventos (oficinas, escolas e conferências) para garantir a coordenação e interoperação da infraestrutura europeia de grid com aquelas emergindo em outras regiões do mundo (África, Ásia, América Latina, Mediterrâneo e Oriente Médio).

O contato com as Comunidades Virtuais de Pesquisa (VRC, sua sigla em inglês) tem sido também uma das atividades realizadas mais importantes. Assinamos Memorandos com WeNMR e WFR4G e estamos trabalhando para construir uma VRC intercontinental sobre a mudança climática. A conferência de alto nível organizada no ICTP de Trieste em maio foi muito importante para reunir os pesquisadores sobre mudança climática, provedores e gerenciadores de e-Infraestrutura para compreender os requerimentos de uma comunidade tão grande.

Seis comunidades virtuais de pesquisa (VCR) foram identificadas pelo CHAIN no começo de abril como os possíveis atores principais para a grande tarefa de propor um modelo de referência para as VCR. Elas estão participando na elaboração desse modelo de referência? Ele está sendo produzido atualmente? Quais o senhor prevê que serão suas indicações-chave?

Atualmente estamos trabalhando com elas para esclarecer seus requerimentos e temos preparado um modelo baseado em uma solução de curto prazo fundamentada nos Scientific Gateways (Portais Científicos) e uma visão de longo prazo para a interoperabilidade. A solução de curto prazo está sendo desenvolvida atualmente e será apresentada no começo do próximo ano. O objetivo é demonstrar que as e-Infraestruturas podem ser interoperáveis entre si utilizando padrões e que os aplicativos específicos para uma VRC podem ser apresentados de qualquer lugar e executados em todo lugar.

Para atingir este objetivo precisamos facilitar o acesso dos usuários às e-Infraestruturas e estamos convencidos de que as Federações de Identidade podem proporcionar um estímulo nesse sentido.

Como o senhor avalia o primeiro ano do CHAN e como prevê que será o segundo?

O primeiro ano de atividade tem sido muito emocionante e investimos muito esforço em recolher informação e organizar reuniões e oficinas para transmitir a mensagem de que uma grande coordenação intercontinental é possível e que ela é benéfica para várias comunidades científicas.

O segundo ano será destinado à consolidação dos resultados obtidos, continuar envolvendo as comunidades científicas interessadas e, por fim, colher os resultados do que temos feito. Atualmente estamos planejando a organização de várias oficinas nas quais queremos demonstrar as oportunidades oferecidas pelas infraestruturas de computação distribuídas para as comunidades científicas selecionadas.

Um plano de ação sobre as interoperações entre a Europa e outras infraestruturas regionais de grid será outro dos produtos finais mais importantes do CHAN.

Todas as regiões identificadas pelo CHAN estão atualmente operando infraestruturas de grid, quais são as principais diferenças entre as regiões quanto ao gerenciamento e uso delas?

De acordo com o que foi mostrado pela nossa sondagem, as principais diferenças estão relacionadas com a estrutura organizacional e, em alguns poucos casos, com o middleware diferente que está sendo usado. A primeira, que é uma consequência “natural” das diferentes oportunidades oferecidas pelas estruturas governamentais e as diferentes agregações de comunidades científicas, às vezes está relacionada com a segunda: A Índia e a China tem um apoio governamental muito sólido e um middleware específico.

Em outras regiões a mensagem sobre a importância das e-Infraestruturas tem sido avaliado rapidamente pelas comunidades científicas, e as melhores práticas europeias foram aplicadas. Por outro lado, em geral a atividade tem recebido pouca atenção (e fundos) dos governos.

A sustentabilidade das e-Infraestruturas em aquelas regiões fora da Europa que são apoiadas pela Comissão Europeia por meio dos seus diferentes programas de cooperação é uma questão muito importante. Quais são as principais dúvidas dos líderes do CHAN quanto a sustentabilidade futura destas infraestruturas?

A sustentabilidade tem muitas faces e todas elas deveriam contribuir para o resultado final:

- As e-Infraestruturas deveriam abordar uma grande quantidade de usuários;
- Os fundos públicos deveriam estar disponíveis para apoiar as infraestruturas em comum.

Temos avançado em ambos os pontos, mas ainda vemos um longo caminho a percorrer. A quantidade de usuários deveria aumentar para colocar pressão suficiente das bases nos lugares interessados. Ao mesmo tempo, são necessários alguns investimentos em infraestrutura em muitos países para facilitar o processo e reduzir os custos da implementação da e-Infraestrutura de avançada.

Qual foi a contribuição mais importante da RedCLARA e América Latina para o projeto?

A RedCLARA tem sido fundamental para recolher informação sobre o estado da arte na América Latina com uma abordagem original sobre as questões de estrutura organizacional e sustentabilidade. O cenário da AL é um exemplo muito relevante de especificidades regionais que devem ser consideradas e uma fonte muito ativa de abordagens possíveis que poderiam ser aplicadas em outros lugares.

A RedCLARA é a organizacao de referência para as e-Infraestruturas na América Latina, mas também pode ser um modelo em outros contextos regionais.

Lançado em outubro de 2009, a Confederação de Repositórios de Acesso Livre (COAR) está unindo 59 instituições em 23 países da Europa, América Latina e América do Norte.  Sua missão é melhorar a visibilidade global dos resultados das pesquisas por meio de redes globais de Repositórios de Acesso Livre.


Prof. Norbert Lossau, COAR

Na missão da COAR é fortemente compartilhada pela RedCLARA, que não é apenas membro da COAR, mas também está promovendo a criação da OAR na América Latina por meio do gerenciamento do projeto financiado pelo BID “Estratégia Regional e Quadro de Interoperabilidade e Gerenciamento para uma Rede Federada Latino-Americana de Repositórios Institucionais de Documentação Cientifica”, apoiando a sólida comunidade CoLaBoRa e participando de novas iniciativas com a COAR. Para saber mais sobre a COAR e compreender realmente a importância da OAR, falamos com o Prof. Norbert Lossau, Presidente da entidade e Diretor da Biblioteca Estadual e Universitária de Gotinga, Alemanha.

 

A COAR promove a interoperabilidade de infraestrutura e um armazenamento global conjunto de repositórios de Acceso Livre para permitir e apoiar a reutilização de dados pelos fornecedores de serviços e portais. Atualmente, a COAR tem três grupos de trabalho, cada um com seu próprio conjunto de responsabilidades, objetivos e atividades relacionadas. A COAR aponta para o aumento da visibilidade dos resultados das pesquisas, a preparação do caminho para a interoperabilidade, a promoção da troca de conhecimentos sobre problemáticas de repositórios e o fortalecimento da implementação internacional do acesso livre.

Provavelmente a melhor maneira de descrever o que a COAR está tentando fazer é dizer que estão colocando todos os esforços para garantir que sejam compartilhadas com sucesso as pesquisas em nível mundial na melhor forma possível, colhendo esforços regionais e nacionais em todo o mundo. E quando se trata de regiões, o Presidente da COAR tem uma visão positiva do que está acontecendo com a América Latina: “Acho que a colaboração com a América Latina é um dos desenvolvimentos mais promissores para facilitar a construção de infraestruturas globais de pesquisa, baseada no Acesso Livre e os repositórios digitais”. Essa visão foi compartilhada conosco no dia que pedimos a entrevista que agora convidamos vocês para começarem a ler:

No contexto da Sociedade da Informação quase todos os dias nasce um novo conceito ou forma de produzir conteúdo (às vezes conhecimentos). É difícil lidar com a avalanche de informação e, é claro, o resultado é a desinformação. Neste particular cenário e do seu ponto de vista, como o senhor explicaria o que são os Repositórios de Acesso Livre e para o quê eles servem às pessoas que não são especialistas no assunto?

Antes que a Internet fosse criada, tínhamos bibliotecas, museus e arquivos para colecionar, estruturar, tornar acessíveis (por meio de catálogos) e preservar os recursos de informação e conhecimento. No mundo das bibliotecas tínhamos também empréstimos bibliotecários internacionais para proporcionar livros e outros materiais de biblioteca de um lugar para o outro. Fora deste cosmos de fornecedores de infraestrutura tradicional, tínhamos inúmeras fontes de informação (pesquisas sociológicas, dados capturados a partir de instrumentos ou em laboratórios, áudio, filme, etc.) frequentemente hospedados pelas mesmas instituições. A rede de redes mundial e a digitalização de todos os tipos de fontes de informação e conhecimento têm proporcionado a plataforma e o potencial para vincular e colocar em rede toda esta informação, eliminando as barreiras entre provedores de conteúdo e bancos de dados. Os repositórios de Acesso Livre são as bibliotecas do mundo online, assegurando acesso livre e no longo prazo para qualquer tipo de fonte de informação.

Qual seria para o senhor a melhor forma possível de compartilhamento das pesquisas em nível mundial?

Um sistema global de repositórios de Acesso Livre cumprindo os mesmos protocolos e estando em conformidade com padrões de dados e técnicos, que permitam os fornecedores de serviço construir descoberta, filtração, criação de perfis, mineração de dados, visualização e outros múltiplos serviços sobre estes dados. Da perspectiva do usuário final, aqueles serviços ofereceriam serviço ininterrupto para um banco global virtual de conhecimentos que pode ser (re) utilizada e melhorada a partir de uma boa prática científica (por ex. dando crédito para os produtores de conteúdo).

Por que a interoperabilidade é tão importante?

Sem tecnologias, protocolos e interfaces interoperáveis não poderíamos utilizar a rede de dados em todo o mundo. Seu e-mail seria rejeitado quando você manda para um colega em outro país e a comunicação ficaria muito irregular. Tenta acessar todos os artigos de pesquisa em uma disciplina ou todas as coleções digitalizadas da região latino-americana em apenas um passo. Você não conseguiria no ambiente atual. A COAR quer fazer com que o acesso e (re) utilização das fontes de informação seja tão fácil como se conectar à rede de dados, independentemente da localização física. Em nosso artigo, recentemente publicado, “A justificativa da Interoperabilidade para Repositórios de Acesso Livre, descrevemos por que a interoperabilidade é tão importante e como podemos consegui-la, seja no nível de sistemas, dados, semântica ou políticas (ver: http://www.coar-repositories.org/files/COAR_Interoperability_Briefing.pdf, Editores: Eloy Rodrigues, Universidade do Minho, Portugal e Presidente do Grupo de Trabalho COAR “Interoperabilidade de Repositórios” e Abby Clobridge, Clobridge Consulting, Estados Unidos).

A COAR é uma associação muito jovem. O senhor poderia, por favor, dizer como nasceu e quais são suas necessidades fundamentais que as pessoas por trás de sua criação queriam abordam quando a formaram?

A idéia de criar a COAR nasceu durante o projeto europeu DRIVER (Visão de Infraestrutura de Repositórios Digitais para a Europa). O DRIVER teve muito sucesso na construção de uma comunidade europeia de práticas de repositórios e uma rede virtual de repositórios. Seus lineamentos tinham sido traduzidos para o espanhol, português, tcheco e japonês. Alguns sócios do consórcio DRIVER sentiam que a comunidade de repositórios de acesso livre perderia seriamente seu ímpeto caso o financiamento do projeto acabasse. Esta preocupação era compartilhada por mais e mais instituições, também fora da Europa (ou seja, no Japão, na China, na América Latina, no Canadá, nos Estados Unidos) e levou à fundação da COAR, uma associação jurídica sem fins lucrativos muito leve em termos organizacionais, conforme a legislação da Alemanha. Os objetivos iniciais, que ainda são válidos, tem sido colocar pressão para os repositórios, suas redes e e-Infraestrutura baseadas em repositórios nacionais e internacionais, o desenvolvimento e apoio de padrões interoperáveis para a agregação nacional de conteúdos de pesquisa em repositórios de acesso livre (OA), apoio e coordenação de esforços colaborativos globais destinados a dados de acesso livre de alta qualidade e sistemas interoperáveis, ter um ponto de referência para os esforços de padronização de repositórios, a plataforma da comunidade de repositórios, e uma sede para discussões e reuniões para trabalhar pela racionalização dos desenvolvimentos de repositórios de acesso livre, a promoção de uma taxa aumentada de depósito auto-arquivado com tão pouca carga quanto possível sobre o pesquisador e advogar pela formulação consistente de políticas sobre desenvolvimento de repositórios institucionais.

Quais são as sinergias que o senhor pessoalmente gostaria de ver funcionando entre a COAR e as iniciativas OAR da RedCLARA?

A rede de dados mantida pela RedCLARA é, assim como a rede de dados europeia da GÉANT, útil somente quando estão conectadas e bits e bytes podem ser enviados sem barreiras. A missão de criar uma rede global e interoperável de Repositórios de Acesso Livre, onde os serviços podem ser construídos sobre eles, só pode ser atingida em conjunto. A expertise pode ser trocada entre profissionais em assuntos muito concretos como “Como é que eu devo implementar meu repositório para que ele esteja internacionalmente em ordem”, “Quais são as formas de sucesso para abordar os pesquisadores, financiadores, ministros”, “Existem formas de modificar os acordos de licença com as editoras”, “Como ligaremos publicações com dados de pesquisa”. O sucesso da iniciativa OAR da RedCLARA seria também um sucesso para o movimento internacional de repositórios (OA).

Nas suas próprias palavras, por que a América Latina precisa de um OAR?

Os países da América Latina colaboram em muitas áreas, incluindo economia, cultura, ensino superior e, é claro, a RedCLARA, para proporcionar uma rede de dados ininterrupta. E vocês compartilham o mesmo idioma, o espanhol, que tem uma relação muito próxima com o português do Brasil (“Portunhol”). Além de ter um idioma bastante homogêneo da região da América Latina, existem bastantes semelhanças com a região europeia. Isto cria muitas oportunidades para as sinergias caso os países de uma região trabalharem juntos: você pode se candidatar em conjunto para financiamento, compartilhar trabalho, por exemplo, no desenvolvimento de materiais de aperfeiçoamento, trocar melhores práticas, construir massa crítica de conteúdos de pesquisa (em particular, comparado com outras regiões), conseguir mais influência quando abordadas outras partes interessadas (como editoras). E existe outro motivo muito orientado à pesquisa para criar redes entre países: porque muitos nos nossos pesquisadores já trabalham em comunidades além das fronteiras, e sua expectativa é trabalhar com uma infraestrutura regional e internacional.

Por que é tão importante promover a colaboração e as sinergias entre a COAR e uma OAR da América Latina?

Ver acima meu voto dedicado para uma infraestrutura internacional de repositórios OA. Como poderia funcionar isto na América Latina? E ao mesmo tempo, como poderia funcionar a comunidade e rede da América Latina sem o resto do mundo? As comunidades globais precisam de um backbone organizacional conjunto que apóie a colaboração sistemática através de todas as regiões. Este é o papel onde vejo a responsabilidade (internacional) da COAR. Mas a organização internacional precisa construir e se apoiar em atores dos países e regiões que estejam enraizados em sua própria cultura, sistema de pesquisa e infraestrutura, jurisdição política y legislativa, ambientes econômicos. E, é claro, precisam traduzir para os seus próprios idiomas.

Por fim, quando o senhor nota que tudo o que está fazendo na COAR (bem como o que fazemos na RedCLARA) é trabalhar e colaborar para gerar novos conhecimentos e compartilhar esses conhecimentos, qual o peso específico que o senhor atribui ao casamento entre as palavras “conhecimento” e “compartilhar”?

O conhecimento e o compartilhamento estão inseparavelmente conectados. “Se eu vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”, é uma citação de Isaac Newton (1676) que tem sido usada como lema pelo piloto de Acesso Livre da Comissão Europeia (2008). Compartilhar conhecimentos abertamente pode ser competitivo se comparado com os ciclos fechados de produção de conhecimentos, como demonstrado pela economista Heidi Williams do MIT no seu artigo “Direitos de propriedade intelectual e inovação: Evidência a partir do genoma humano” (2010).  Com relação ao beneficio para nossa sociedade, o Vice-Presidente da Comissão Europeia, Neelie Kroes, Comissária para a Agenda Digital na Europa, aponta: “A informação cientifica tem o poder de transformar nossas vidas para melhor – é valiosa demais como para ser fechada. Além disso, cada cidadão da EU tem o direito de acessar e se beneficiar do conhecimento produzido utilizando fundos públicos”. (Gante, evento de lançamento de OpenAIRE, 2 de dezembro de 2010).

 

Mais informação:

Em 2 e 3 de julho de 2012, Lima sediará a Segunda Conferência dos Diretores de Tecnologias da Informação e Comunicação das Instituições de Ensino Superior. Convidamos as pessoas envolvidas no gerenciamento das TICs das universidades da América Latrina para apresentar trabalhos relacionados ao assunto. O prazo para enviar o material é dia 15 de abril de 2012.

Rambla República de México 6125.
Montevideo 11400. Uruguay.

Proyetos em execução